Desculpas multiformes não nos faltam quando já tomamos a decisão de evitar o compromisso da leitura. É preciso, porém, analisar essas desculpas e constatar o quanto e por que são esfarrapadas.
"Não tenho tempo para ler."
O tempo nasce de dentro para fora. O tempo da leitura é aquele que extraímos de nós mesmos, e o encaixamos em algum momento das 24 horas diárias.
"Estou precisando fazer óculos novos."
Fique tranqüilo: a leitura amplia a nossa visão.
"Ler me dá sono."
A boa leitura desperta, tira desse estado de sono, de apatia e de desinteresse que alguém possa sentir diante de um livro.
"Sempre que estou lendo vem alguém e me interrompe."
O cemitério, à noite, é uma ótima alternativa para lermos livros de terror. Os fantasmas respeitarão nossa sede de solidão literária.
"Os livros são caríssimos."
Existem formas baratas ou gratuitas de ler. Existem bibliotecas (poucas, mas existem), existem sebos (às vezes nem tão barateiros, mas existem), existem amigos generosos que emprestam livros (alguns até nos dão livros de presente!), existe material a ser lido na internet (nem sempre é fácil encontrar, mas existe), e existem grandes livrarias em que você pode sentar-se e ler vários livros sem precisar adquiri-los.
"As editoras só publicam porcaria."
Uma bela desculpa, mas quem já leu muito sabe que há muitas pérolas a serem descobertas.
"Já li tudo o que tinha de ler."
Os grandes leitores pensam e dizem exatamente o contrário.
"As letras do livro são muito pequenas."
As lentes de aumento da curiosidade são imprescindíveis nesses casos.
"Ler à noite estraga a vista."
O dia é uma criança...
"Conheço um cara que vive lendo e só fala bobagem."
Esse cara deve ser eu...
"Livro não ensina nada. O que ensina mesmo é freqüentar a escola da vida."
E na escola da leitura reencontramos a vida, fonte de inspiração para os bons livros.
"Quem lê muito fica doido."
E quem nada lê fica mudo.
"Não quero ler para não ser influenciado."
A leitura inteligente é a melhor das influências.
"Só vou ler depois que fizer um curso de leitura dinâmica."
Toda boa leitura dinamiza nossa vida.
"Amanhã eu começo a ler."
Mas amanhã pode chover, pode ser que falte a luz, pode ser que cheguem visitas inesperadas, pode ser que você sinta aquela dor de cabeça...
Gabriel Perissé é autor do recém-lançado livro "Palavras e origens", Ed. Mandruvá.
Pessoal, o livro escolhido para o próximo encontro será "O Silêncio dos Amantes", de Lya Luft, o primeiro livro de contos que será lido em todo o nosso primeiro ano de existência.
Este livro é para guardar. Segue um trecho de um dos contos:
A Pedra da Bruxa
Quando meu filho tão querido sumiu, quando se transformou, se matou, se jogou ou caiu da Pedra da Bruxa, se perdeu no mato ou saiu voando e nunca mais voltou -, entendi que nossa cumplicidade só existia na minha imaginação. Essa foi a sua verdadeira morte: nossa relação tão especial era mentira. A boa vida familiar era falsa. Andávamos sobre uma camada fina de normalidade. Por baixo corriam rios de sombra que eu não queria ver. Ele, meu filho tão extraordinariamente amado, era irremediavelmente sozinho eu, que me considerava a melhor das mães, de nada adiantei.
Tive a ilusão de que comigo ele se abria, pelo menos me escutava com aquele olhar distraído. Pensei que nossa ligação fosse excelente, ele sendo um menino difícil. Eu respeitava seu jeito diferente, desculpava suas impaciências, mãe, não me abraça com tanta força, mãe pára de me tratar feito bebezinho, não me controla! Tinha certeza de que em qualquer momento crucial de sua vida era a mim que iria recorrer. E não foi assim.
Ele não era um bebê tranqüilo. Não parecia contente no meu colo, só dormia quando eu o deixava sozinho no berço. Era uma criança quase sombria, comparado ao irmão mais velho, um menino forte e alegre. Criança sombria nem existe, diziam, você se preocupa demais, cada bebê já nasce com uma personalidade! Mas ele preferia contemplar as folhas no vento, os grãos de poeira no raio de sol que entrava pela janela, em lugar de brincar. Na escolinha não fazia amigos, batia nos outros e os mordia, ou era objeto de pancada. O pai não tinha a menor paciência, e se dedicava ao outro. Do mais novo, eu imaginava ser a melhor amiga.
Ele, porém, só queria ir embora. Não queria nada do que tínhamos para lhe dar. Dizia isso mesmo, sem maldade nem amargura. Quando criança queria aprender a voar feito passarinho para ir bem longe daqui. Crescendo, sonhava morar na montanha, armar uma tenda na Pedra da Bruxa, seu lugar preferido, e ser livre.
- Livre de quê, bobão? perguntava bem humorado o irmão mais velho.
Aquele meu primeiro filho, perninhas bem firmadas no mundo, um sorriso aberto, gritava de alegria quando a gente o pegava no colo. Cresceu cheio de amigos e projetos, bom na escola, ativo nos esportes, companheiro do pai. Nunca me deu trabalho. Talvez, preocupada com seu irmão menor, eu o tenha deixado um pouco de lado, mas ele nunca parecia precisar de mim. Ao contrário, preocupava-se comigo:
- Mãe, deixa esse menino viver sua vida, é o jeitão dele! Não fique sempre em cima, não seja tão ansiosa dizia, como se fosse mais maduro do que eu.
O mais moço, filho das minhas aflições, parecia não ter amigos. Na escola olhava de longe a algazarra dos outros. Não fazia questão alguma de ser como o resto da turma: ele não tinha uma turma. Mesmo bem pequeno, de vez em quando deitava na cama, até embaixo da mesa da sala, e chorava longo tempo, um pranto sem soluços, de cortar o coração.
O pai se aborrecia:
- Levanta daí, deixa de choramingar feito uma velha, vai jogar bola com seu irmão!
Eu pedia que tivesse paciência, era uma fase. Ia passar. Depois, com jeito, me aproximava:
- Filho, mas o que foi? Vem, conta pra sua mãe.
- Nada, mãe, eu só tenho vontade de chorar.
Uma das professoras chamou minha atenção para seus desenhos: enquanto o irmão plantava casas, árvores, bichos e carros em solo firme, os dele pairavam no ar, miúdos e perdidos na página branca. As pessoas, até a si mesmo, desenhava sem rosto.
- Sem rosto? O que significa isso? perguntou o pai fechando a cara, e me arrependi de ter comentado.
Criança difícil faz terapia, aconselharam, e meu filho fez. Ia às sessões, já um meninão magro e bonito, mas a psicóloga também se queixou:
- Ele fica ali, quieto, me olhando com aquele ar de quem está pensando em outra coisa.
Depois de muita conversa com a psicóloga e comigo, por um breve tempo o pai tentou se aproximar, levar pra casa da montanha, nadar no rio, ou pescar. O menino ia, sorria debilmente, segurava a vara de pescar sem nenhum interesse, não emburrado ou malcriado, apenas, como em geral, ausente. E nunca aprendeu a nadar.
O pai acabou furioso:
- Esse menino é muito esquisito.
- Não diga isso, é nosso filho
- É nosso filho mas é esquisito. Nenhum outro rapaz é assim. Ele parece sempre à margem de tudo. Eu desisto.
Para surpresa nossa, algum tempo depois, o menino, que nunca pedia nada, não participava, na hora do café da manhã disse:
- Pai, domingo me leva no jogo?
- Ué, agora você se interessa por futebol? o pai duvidava.
- Claro, meus colegas vão com os pais deles, você me leva?
O pai o encarou meio incrédulo, quem sabe participar de atividades mais masculinas dava um jeito naquele filho? Num impulso de seu coração paterno, decidiu não convidar o outro: entendeu que aquele poderia ser um momento só dos dois, o pai e o filho complicado. Comprei camiseta do clube, animei, expliquei, o menino saiu pela mão do pai, entrou no carro e acenou para mim, quase feliz. Na volta, fim de tarde, entraram em casa um pai carrancudo e um menino com rosto inchado de chorar.
- Nos primeiros gritos da torcida, no primeiro gol, começou a chorar feito uma menininha. Ficou assustado, imagine só. Passei vergonha disse o pai, e foi se fechar no quarto.
Os dois irmãos davam-se bem, mas sem intimidade. Eu raramente os via juntos. Um parecia achar graça do outro. Ele chamava o maior de troglodita, naquele tom de afetuosa implicância que acontece entre irmãos; o mais velho o chamava de queridinho da mamãe, no mesmo tom sem maldade. Quando já era um adolescente alto, magro, um pouco desajeitado, naquela manhã fatal em nossa casa na montanha, ele chegou perto do pai quando este pegava a chave do carro, e, num esforço para vencer a barreira da timidez, pediu:
- Pai, a gente pode conversar um pouco?
O pai, desacostumado, espantou-se. Homem racional e direto, disse algo direto e racional:
- Filho, estou atrasado, preciso estar na cidade em uma hora. Na minha volta a gente fala, está bom? E partiu sem nenhum remorso porque não imaginava o que estava por vir.
Olá, parceiros de leitura:
Nosso próximo encontro será dia 29/06, às 18h e 15min na Bilbioteca da Fase I, como sempre.
A lista de títulos sugeridos está aí para que votem no próximo livro até quarta-feira, 27/05.
O livro de JULHO (já escolhido) será "As Virtudes da Casa", de Assis Brasil.
OPÇÕES PARA JUNHO:
O DIÁRIO DE ANNE FRANK
Este livro é uma edição que traz na íntegra o diário de Anne Frank, com todos os trechos que seu pai cortou para a publicação de 1947, já tão conhecida e lida. É comovente descobrir que mesmo no contexto tenebroso do nazismo e guerra, ela viveu problemas e conflitos de uma adolescente de qualquer lugar e tempo. Anne Frank registrou admiravelmente a catástofre que foi a Segunda Guerra Mundial. Seu diário está entre os documentos mais duradouros produzidos neste século, mas é também uma narrativa tenra e incomparável, que revela a força indestrutível do espírito humano.
A GUERRA DOS MUNDOS, de H.G.WELLS.
Publicado pela primeira vez em 1898, essa obra-prima de ficção especulativa de H.G. Wells aterrorizou e divertiu gerações de leitores, gerou inúmeras imitações e serviu de inspiração a mestres como Orson Welles e Steven Spielberg. Por tempos, os homens foram estudados à distância pelos marcianos, que nos observavam como quem analisa micróbios por um microscópio. No final do século XIX, entretanto, eles partem para a Terra e aterrissam nos arredores de Londres. À primeira vista, os marcianos parecem risíveis; mal conseguem se mover, e não saem da cratera criada pela aterrissagem de sua espaçonave. Mas, conforme seus corpos começam a se acostumar com a gravidade terrestre, revelam também seu verdadeiro poder. Os marcianos são máquinas biomecânicas assassinas com mais de 30 metros de altura, que destroem tudo a sua volta. Aniquilando toda tentativa de retaliação do exército britânico, eles rapidamente eles chegam à capital britânica, que é evacuada às pressas por uma população desesperançada. O enredo é uma analogia à Inglaterra e à Europa do século XIX - potências imperialistas que submetiam, colonizavam e sugavam recursos de culturas menos avançadas tecnologicamente. Com 'A Guerra dos Mundos', Wells procurava mostrar o que seria da Inglaterra se ela enfrentasse o mesmo tipo de extermínio social, econômico e cultural que impunha a outros povos.
O XALE, de CYNTHIA OZICK.
Os dois contos reunidos neste pequeno volume foram publicados originalmente em separado, na década de 1980, na revista The New Yorker. Juntos, constituem um feito artístico monumental, uma das obras de ficção mais corajosas e complexas já escritas sobre o Holocausto. Com prosa lacônica e hipnótica, o conto 'O xale' decorre num campo de concentração ou, mais exatamente, na consciência de Rosa, uma prisioneira que tenta desesperadamente salvar a vida de sua filha pequena. No segundo conto, 'Rosa', encontramos a mesma mulher trinta anos depois, vagando por uma Miami surreal, em busca de algo que jamais poderá encontrar - a vida que lhe foi roubada. Essas pequenas obras-primas de Cynthia Ozick foram incluídas na coletânea anual Best American Short Stories e agraciadas com o primeiro lugar na O. Henry Prize Stories. 'O xale' também foi selecionado por John Updike para a coletânea 'The Best American Short Stories of the Century'.
O APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO, de J.D. SALINGER
Um garoto americano de 16 anos relata com suas próprias palavras as experiências que ele atravessa durante os tempos de escola e depois. Revela tudo o que se passa em sua cabeça. O que será que um adolescente pensa sobre seus pais, professores e amigos?
O SENHOR DAS MOSCAS, de WILLIAM GOLDING.
Um grupo de jovens é retirado de uma cidade atingida por um bombardeio atômico. Eles passam a viver numa ilha deserta do Pacífico e lá reconstituem os valores da sociedade em que viveram. Apresentação de Santiago Nazarian.
O PAI INVISÍVEL, de KLEDIR RAMIL.
Se no início de suas vidas os filhos dependem dos pais para tudo, quando chega a adolescência parece que os pais se transformaram em seres invisíveis. O pai não é mais informado de nada; quando fica sabendo das combinações, já está tudo arranjado. Num texto espirituoso, Kledir Ramil, consagrado na música com a dupla Kleiton e Kledir, relata as várias situações cômicas e surreais pelas quais já se viu envolvido com os filhos adolescentes e relembra seu próprio tempo de moleque, quando tudo parecia acontecer em outro ritmo.
O CONTO DE AMOR, de CONTARDO CALLIGARIS
'O conto do amor' inicia com a visita de Carlo Antonini, psicoterapeuta que vive em Nova York, ao convento de Monte Oliveto Maggiore, na Toscana. Ali ele se depara com algo inusitado - a figura do jovem São Bento, pintada em um dos afrescos nas paredes, é parecida com seu pai, que morreu doze anos antes. Isso o remete ao próprio motivo de sua ida à Itália - uma estranha conversa que ambos tiveram pouco antes de o pai morrer, quando este revelou ao filho, em tom de confissão, que em outra vida teria sido ajudante do pintor maneirista Sodoma (1477-1549), justamente o autor daquelas imagens. É o início de uma história cheia de surpresas, envolvendo um caso amoroso em meio à Segunda Guerra e seus desdobramentos da época até o presente.
Novas sugestões:
AMOR EM MINÚSCULA
Na última noite do ano, Samuel, um professor, tem a certeza de que os 365 dias seguintes não serão muito diferentes daqueles que passaram - milhares de provas a corrigir e aulas a preparar. Em sua rotina, a atividade mais emocionante é a ida ao supermercado. No entanto, para não romper com a tradição, Samuel não se opõe às usuais 12 uvas e à taça de champanhe para celebrar o ano-novo. Na manhã do novo ano, ao se levantar bem cedo, o professor está convencido de que nada de insólito irá lhe acontecer. No entanto, um estranho ruído o leva até a entrada do apartamento. Ali, à soleira da porta, encontra-se um pequeno visitante. Com menos de um palmo de altura e dono de pêlos tigrados, um gato saúda com um miado musical o novo amigo. Porém, o que Samuel não imaginava era que aquela visita seria o começo de uma incrível transformação em sua vida. Disposto a não abandonar o novo dono, Mishima (nome recebido em homenagem a um velho escritor japonês) leva Samuel a conhecer Titus, vizinho com quem jamais trocara palavra, e o enigmático Valdemar. Desses dois encontros nasce uma curiosa e terna amizade que, como num passe de mágica, é responsável pelo reencontro do solitário professor com a misteriosa Gabriela... depois de trinta anos. Pela primeira vez em sua vida, Samuel tem a oportunidade de viver intensamente os pequenos acontecimentos cotidianos. Escrito pelo espanhol Francesc Miralles, 'Amor em minúscula' é uma delicada e terna história de amor e amizade, que vai comover o leitor e revelar os pequenos segredos de uma vida plena.
DEWEY, DE VICKY MIRRON
A rotina da pacata cidade de Spencer, Yowa, Estados Unidos, se transforma após Dewey, um gato, ser encontrado na Biblioteca Pública. A diretora da Biblioteca, que achou o gatinho na caixa de devolução, resolve contar a história e lança o livro, 'Dewey, um gato entre livros'. O livro escrito por Vicki Myron, com colaboração de Bret Witte, é a história real de um gato que fez da biblioteca - e da cidade de Spencer- sua casa e de seus habitantes, os melhores amigos.
Adeus, China!
Em um vilarejo extremamente pobre do nordeste da China, um jovem camponês está sentado em sua velha e frágil carteira escolar, mais interessado nos pássaros lá fora do que no 'Livro Vermelho de Mao' e nas pobres palavras nele contidas. Naquele dia, porém, homens estranhos chegam à escola - os delegados culturais de madame Mao. Estão à procura de jovens camponeses que, depois de receberem a formação necessária, possam tornar-se os fiéis guardiões da grande visão de Mao. O garoto observa um dos colegas ser escolhido e levado para fora da sala. A professora hesita. Deve ou não deve? Quase desiste. Mas, no último momento, toca no ombro do oficial e aponta o garoto miúdo. 'Que tal ele?', ela pergunta. Em um único momento, a possibilidade mais remota mudou de modo indescritível o curso da vida de um garoto. Ele faria parte de algumas das maiores companhias de balé do mundo. Um dia seria amigo do presidente e da primeira-dama, de astros do cinema e das pessoas mais influentes dos Estados Unidos. Seria uma estrela - o último bailarino de Mao, o queridinho do Ocidente. Esta é a história de Li Cunxin - uma narrativa que poderia ter desaparecido, como as vidas de outros milhões de camponeses, em meio à revolução e ao caos.
O Silêncio dos Amantes, de Lya Luft;
Em 'O silêncio dos amantes', Lya Luft traz histórias ligadas por alguns de seus temas prediletos desde os primeiros livros - a incomunicabilidade e o silêncio entre pessoas que se amam ou deviam se amar, os conflitos familiares, a busca de um sentido da vida, rancores, incompreensão, mas também magia e amor nos relacionamentos.
Os biólogos, cientistas, cientificistas - enfim, qualquer estudioso do corpo humano - não cansam de afirmar e reafirmar a perfeição do corpo humano. A mais completa máquina já criada. O complexo sistema de células, órgãos, substâncias que sintetizam a perfeição. Pois tratemos de discordar. O corpo necessita de combustíveis. Se precisamos de água, temos sede. De comida, temos fome. Nunca paramos de respirar. Por que nos falta uma necessidade de ler? Alias, não há sequer um nome pra isso. Simplesmente a necessidade de ler. Algo como a manutenção da intelectualidade, ou da saúde do cérebro. Ler. Ler como quem mata a sede. Como quem avança sobre um prato de comida. Um copo de água bem gelada e uma Clarice. Uma lasanha e um Machado. Para todos os dias, arroz, feijão e Allan Poe.
A falta de leitura deveria ser retratada em fotografia premiada pela National Geographic. Concorrentes do Foto do ano de 2004: O menino faminto da Etiópia, a baleia encalhada da Antártida e o Sem-livro do Brasil. Deveria estar estampado na cara do sujeito: Sou subletrado.
Não se justifica com a situação do nosso país. Não se trata aqui da falta de incentivo e de educação, já notória e discutida. Mas de atitude.
Os jovens - ah, sempre os jovens não conseguem, ou não querem, enxergar o benefício da leitura. Qualquer leitura. E os jovens crescem, ou já cresceram, subletrados. Daí a pergunta: E se houvesse uma necessidade física? Penso que ainda há o que mudar na estrutura humana. Que tal essa dica? Hein! Na falta de uma terminologia melhor, fica a fome de leitura, ou a FOMURA. O menino grita: Manhêêê, to com uma fomura danada. E ela vem correndo com a Ruth Rocha que é pro menino parar de reclamar. O pai, no meio da noite, acorda com o choro do bebê. Dá a mamadeira, troca a fralda e lê o Ziraldo enquanto o neném não consegue sozinho. O casal de namorados vai sair a noite. Jantar, choppinho ou leitura? O rapaz mais afoito sugeriria um João Ubaldo. O divorciado um Nabokov. O mais esperto um Vinícius (sim, elas ainda adoram). E a combinação vinho, massa e Drummond? Irresistível.
O sonho enfim se concretizaria com o obeso-literato. Aquele que, de madrugada, assalta a estante. Acha que não faz mal um Parnasianismozinho durante as refeições. Vai ao médico, o letricionista, que lhe passa uma dieta a base de romance. Nada muito pesado. Depois das 20 horas, só Sidney Sheldon. Mas cai em tentação e é flagrado com Crime e Castigo nas mãos. A família se preocupa. Tornou-se um livrólatra. Só o L.A. poderá salvá-lo. Nas reuniões com o grupo de viciados em literatura, ele conta sua saga: Bem, comecei aos 10 anos. Como todo mundo. Fadas, chapéus, narizes que cresciam. Depois eu parti pros livros menores. Mas quando você menos espera, já está devorando um Jorge Amado numa sentada só. Um ooh ecoa na sala. Senhoras comentam entre si. Tão novinho e tão letrado né!
Bibliotecas lotadas. Um silêncio ensurdecedor. Filas enormes para entrar. É muita gente morrendo de fomura. Consegue uma mesa, pede o menu.
- Por favor, me vê duas Cecílias. E pro menino pode ser um Lobato, que ele adora!!
- Senhor! Nossas Cecílias acabaram.
- O quê? E o que você sugere?
- Nosso Eça é legítimo, senhor! E temos Camões
- É que os portugueses são caros né! E meu médico me proibiu Camões durante a semana.
- Algum Andrade?
- Não sei. Não sei. To indeciso ainda.
Depois de alguns minutos pensando e testando a paciência do rapaz que lhe servia...
- Ah, vou de Paulo Coelho mesmo que é só pra matar a fomura.
Fabiano Cambota é líder e vocalista da Banda Pedra Letícia. ,É goiano (mas urbano), inteligente e divertido....
Pra quem quiser conhecer a banda: www.pedraleticia.com.br
Conferência PNL - Wendy Griswold (Northwestern University, EUA)- Wendy Griswold fala da leitura e literacia em vários contextos internacionais e da leitura nos meios digitais. Aborda, depois, os leitores enquanto classe social e a leitura como um direito humanitário.
Publicado em 21/01/2009 | Ricardo Ampudia / GAZETA DO POVO
Alheios ao brado dos conservadores de que a tecnologia tem tirado o foco dos jovens, seduzindo-os pelo entretenimento, os educadores se plugam no que há de novo no mundo cibernético para ser usado como ferramenta educativa. O blog espécie de diário virtual é apontado como um meio democrático para a divulgação de conhecimento e informação.
A característica mais interessante do blog é que é uma ferramenta muito simples, até um leigo consegue estruturar um, comenta o doutor em educação João Luís Machado, pesquisador do uso do blog em sala de aula e criador do portal Planeta Educação.
Machado aponta três usos da ferramenta pelos professores: na relação com os alunos, entre professores e com a comunidade externa. Pode servir ao professor para tornar disponível, por exemplo, material de apoio às suas aulas, atividades extras e até relatar o andamento da matéria aos alunos que perderam uma aula, afirma.
Experiências
Após uma oficina de poesia romântica, em homenagem ao dia dos namorados, a professora de Língua Portuguesa do Colégio Prieto Martinez, Geralda Eni Gonçalves, sentiu que todo o talento de seus alunos não caberia na gaveta; decidiu que era preciso publicá-los. Eles escreveram textos lindos, eu imprimi e fiz um painel na escola, mas ainda achei que tinha de fazer mais. Foi aí que tive a ideia de usar um blog. Me associei a um grupo de discussão de educadores que trabalha com tecnologias e li bastante sobre o assunto, conta.
O resultado é o blog No chão da escola (http://www.integrarsaberes.com). A professora ressalta que mais do que divulgar o trabalho em sala, a iniciativa também criou uma integração maior entre os alunos. Trabalhamos com alunos de diversas realidades sociais e para acessar o blog todos se ajudaram, trocaram experiências, afirma ela. A única dificuldade é a restrição de acesso a blogs pelos computadores dos laboratórios de informática da rede pública. A restrição é uma medida do governo estadual para impedir o acesso pelos alunos a conteúdos não-didáticos. O site de vídeos Youtube também já foi proibido, mas agora o acesso é autorizado.
A professora do Colégio Medianeira, Luciane Hagemeyer, que trabalha com alunos da terceira série do ensino fundamental, sabe bem dos cuidados que se deve ter no ambiente virtual. Sempre que vou utilizar algum vídeo do Youtube, verifico se os links indicados não contêm nenhum tipo de conteúdo impróprio, diz. Ela usa o blog nas aulas de leitura, para incentivar e complementar as obras que estão lendo. Quando trabalharam Alice no País das Maravilhas, de Lewis Caroll, ela criou o blog Literalice (http://literalice.zip.net) para contextualizar as histórias e sugerir questões a respeito do livro. Pelo blog tentei trazer imagens e vídeos que favorecessem o significado, o contexto. A motivação pela leitura fica diferente, é uma conversa, pois eles participam, fazem comentários, diz.
Luciana lembra ainda que as crianças já têm grande contato com o mundo virtual e é função do professor orientá-las nesse terreno. Desde muito cedo elas têm contato com joguinhos, MSN, orkut. O blog é uma das maneiras que nós podemos usar para filtrar essa vastidão de material disponível para crianças, afirma.